Isso chama-se consideração.

Ele ia almoçar todo dia no mesmo restaurante.
Restaurante do Seu Alberto.
Tinha, logo do lado, um outro cheio de pompa. Um Bistrô. Mas ele gostava mesmo era daquele bifão cheio de gordura naquele prato com florzinhas nas bordas, cheio de arroz e feijão.
O restaurante do Seu Alberto vivia às moscas, e se via no máximo duas ou três pessoas na hora do almoço, mas ele, era cliente fiel do Albertão. E o Seu Alberto gostava muito disso. Quando ele chegava, Alberto, que era cozinheiro e garçom ao mesmo tempo, abria um sorrisão de orelha a orelha, (sempre com uma caneta em uma delas) e perguntava como tinha sido o dia de trabalho dele, até ali. Ele era tratado como um filho.

Num belíssimo dia nublado, foi ele, cumprindo o itinerário de rotina, almoçar no Alberto's.
Alberto dizia:
- "O de sempre?" -

Ele respondia:
- "No capricho, Seu Alberto!".

Minutos mais tarde, chega Alberto com o prato em uma bandeja, um paninho nos ombros e perguntando o que ele beberia.
- "Coca?"
- "Uhum."

Ele esfaimado como estava, nem esperou chegar a bebida e tratou de ir cortando logo o bife e dando a primeira garfada. Aí veio a má notícia. Ele ao cortar o bife, sentiu uma textura diferente, um barulhinho meio crocante e começou a procurar o que era.

Era uma barata. É, barata. Bem embaixo do bife.
Logo depois disso, chegava Seu Alberto com a mesma satisfação de todo dia, com a bebida que fora pedida, perguntando o que já era de costume:
- "Tá bom o bife?"

Ele respirou fundo, deu uma garfada e respondeu tentando fazer a cara mais agradável possível:
-"Tá ótimo, Seu Alberto."

E Seu Alberto voltou pra cozinha com a sensação de mais uma vez ter agradado um cliente. Feliz da vida.

Ele mesmo, não tocou mais na comida. Deu uma golada na coca pra tirar o gosto de barata da boca, deixou o dinheiro em cima da mesa e se despediu aos gritos:
- "Tchau Seu Alberto, tô atrasado!"

Nos dias que viriam, ele continuou indo almoçar no mesmo lugar, mas sempre se certificando de que não havia nenhuma baratinha escondida no bife, ou entre os grãos de feijão.

Ele é um cara legal.

Aos trancos e barrancos.

Sem mais delongas, estamos classificados, por enquanto.

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